No footing, elas andavam de um lado da avenida e eles do outro
01/10/2026 · sexualidade · Fontes consultadas: Letícia Silva Azevedo, "Footingando por Minas Gerais: footing na primeira metade do século XX", BELA – Blog Estudos do Lazer, Prog
Ilustração criada pelo Clube da Maturidade
Em muitas cidades brasileiras da primeira metade do século XX, o fim da tarde tinha hora marcada na avenida principal. Chamava-se footing: andar devagar, de um lado para o outro, sem destino nenhum. O percurso era o destino.
A pesquisadora Letícia Silva Azevedo, do programa de pós-graduação em Estudos do Lazer da UFMG, reuniu registros do costume em jornais e revistas de Minas Gerais das décadas de 1910 a 1940, pela Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Na Avenida Afonso Pena, em Belo Horizonte, a circulação se organizava por sexo — elas de um lado, eles do outro —, o que punha o olhar no centro do arranjo. Havia horário, a chamada hora azul, no fim da tarde. E havia condição de entrada: roupa à altura, modos, e o dinheiro que as duas coisas pressupunham. Não era passeio para todo mundo.
Um estudo de 2023 da Universidade Federal de Pelotas chega ao mesmo costume por outro caminho, o de fotografias de um álbum de família em Porto Alegre entre os anos 1930 e 1950, em que a roupa é o que se tinha a mostrar.
Convém separar o que é o quê. Os jornais registram a prática, o lugar e a hora. Que ela servisse ao flerte e ao namoro é leitura das pesquisadoras sobre esses registros: plausível, e ainda assim leitura.
A palavra saiu de uso. A praça com coreto, banco de ferro e uma volta inteira a dar continua no centro de muita cidade brasileira.