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O Kamasutra ficou conhecido por uma tradução de 1883 — que trocou a fala das mulheres por discurso indireto

24/09/2026 · sexualidade · Fontes consultadas: Encyclopaedia Britannica, verbete "Kama-sutra" (britannica.com/topic/Kama-sutra), acesso em 24/09/2026; Wendy Doniger, "Redeeming

O Kamasutra ficou conhecido por uma tradução de 1883 — que trocou a fala das mulheres por discurso indireto

Ilustração criada pelo Clube da Maturidade

Pergunte o que é o Kamasutra e a resposta quase sempre descreve uma sequência de posições. A Britannica registra outra coisa: escrito no século III por Vatsyayana Mallanaga, é o mais antigo tratado indiano sobre o tema do prazer que chegou até nós, e trata de bem mais do que posições sexuais.

O que circulou pelo mundo, porém, não foi o sânscrito. Foi a tradução inglesa publicada em 1883, associada ao nome de Richard Francis Burton. A indóloga Wendy Doniger, da Universidade de Chicago, escreve que o Kamasutra é conhecido, tanto na Índia quanto na Europa, quase inteiramente por essa tradução — que ela considera falha. A versão era barata ou gratuita, caiu em domínio público e se tornou, nas palavras dela, reconhecível como aquilo que as pessoas acham que o Kamasutra deveria ser.

A crítica de Doniger é específica. A tradução de Burton, escreve ela, rouba às mulheres suas vozes, transformando falas diretas em discurso indireto e apagando a presença viva das muitas mulheres que falam no texto. Num trecho, o direito de uma esposa de usar linguagem dura contra um marido infiel virou a recomendação de que ela não fosse rabugenta.

Uma observação, e esta é nossa, não de Doniger: um texto em que mulheres falam atravessou dezoito séculos e chegou aqui com fama de manual de técnica. Dá para ler isso de mais de uma maneira — acidente de tradução, moral do século XIX, interesse de quem vendia o livro. Nenhuma das três exclui as outras.

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