Histerectomia e desejo: o que duas revisões mediram, e o que elas não conseguiram separar
24/09/2026 · sexualidade · Fontes consultadas: "Hysterectomy and sexual function: a systematic review and meta-analysis", Journal of Sexual Medicine, v. 20, n. 4, fevereiro de 2
Ilustração criada pelo Clube da Maturidade
Muita gente ouviu que retirar o útero encerra o desejo. A crença costuma chegar antes de qualquer informação.
Duas revisões reuniram o que os estudos mediram. A primeira, publicada em fevereiro de 2023 no Journal of Sexual Medicine, juntou 32 estudos e 4.054 pacientes e não encontrou mudança significativa na função sexual geral após a cirurgia. A segunda, publicada em julho de 2026 na Medical Sciences, analisou 34 estudos e não achou mudança clinicamente relevante em desejo, excitação, orgasmo ou satisfação — e registrou que boa parte das participantes já pontuava na faixa de dificuldade antes de operar, e seguia pontuando depois.
Há um detalhe que as duas separam: os ovários. Quando eles também são retirados, parte das medidas piora, e esses casos entram numa análise à parte.
O que elas não conseguem dizer pesa igual. São em boa parte estudos observacionais, muito diferentes entre si, e nenhuma delas separou os resultados pelo motivo da cirurgia — quem opera por dor crônica e quem opera por sangramento não parte do mesmo ponto. Média de grupo não responde caso individual: o motivo, o destino dos ovários e o que já acontecia antes são o que a equipe que acompanha a pessoa tem em mãos.
Vale lembrar de onde vem a palavra. "Histeria" se formou a partir do grego hystera, útero: por séculos a medicina atribuiu ao órgão sintomas e humores das mulheres, e o termo ficou na língua comum depois de sair dos manuais.