Por que uma mudança que você escolheu também pode incomodar por dentro
30/09/2026 · mente em terapia · Fontes consultadas: Holmes, T.H. & Rahe, R.H. (1967), Journal of Psychosomatic Research; Simply Psychology
Ilustração criada pelo Clube da Maturidade
Depois de décadas no mesmo bairro, uma pessoa finalmente se muda para um apartamento menor, mais perto da família. Era o que queria. Ainda assim, nas primeiras semanas, sente um estranhamento difícil de nomear — como se algo estivesse errado, mesmo tendo escolhido aquela mudança.
Esse desconforto tem explicação. Em 1967, os pesquisadores Thomas Holmes e Richard Rahe propuseram, nos Estados Unidos, uma escala para medir o quanto diferentes acontecimentos exigem readaptação da rotina. Um achado repetido em validações posteriores, com outras populações adultas, é que eventos positivos — um casamento, uma conquista pessoal, uma mudança de endereço — também entram na conta, porque pedem reorganização de espaço, hábitos e identidade, não só os eventos considerados ruins. A escala tem limites: foi criada há décadas, não capta como cada pessoa vive o mesmo acontecimento, e a associação encontrada entre mudanças e problemas de saúde foi pequena, não uma relação de causa garantida.
Isso não quer dizer que toda mudança desejada traga sofrimento, nem que o desconforto inicial seja sinal de arrependimento ou de escolha errada. Quer dizer que se adaptar consome energia, mesmo quando a direção tomada é a certa. Reconhecer isso tira a cobrança de estar plenamente bem logo de cara.
Da próxima vez que uma mudança buscada por você vier acompanhada de um mal-estar inesperado, talvez a pergunta não seja "por que não estou feliz", e sim o que, nessa fase nova, você ainda está aprendendo a habitar.