Aceitar ajuda não é o mesmo que perder autonomia
14/10/2026 · mente em terapia · Fontes consultadas: Anita Liberalesso Neri (Unicamp), revista Temas em Psicologia; Baltes & Baltes (1990)
Ilustração criada pelo Clube da Maturidade
Trocar dirigir à noite por uma carona, usar bengala em trajetos mais longos ou pedir ajuda para lidar com um aplicativo novo: situações assim costumam vir acompanhadas de desconforto, como se aceitar apoio significasse perder independência. A psicóloga Anita Liberalesso Neri, da Unicamp, descreve em um texto sobre a obra do pesquisador alemão Paul Baltes um modelo que ajuda a enxergar essa questão de outro ângulo: o modelo de seleção, otimização e compensação, criado por Baltes e sua equipe para explicar como as pessoas se adaptam aos ganhos e às perdas que acompanham o envelhecimento.
Nesse modelo, compensar uma perda — usando um recurso próprio ou a ajuda de outra pessoa — é uma das três estratégias que, junto com escolher prioridades (seleção) e investir energia onde importa (otimização), permitem continuar funcionando bem. Segundo a autora, o modelo não trata a independência total como meta: envelhecer bem é descrito como fazer o melhor possível com os recursos disponíveis, sejam eles próprios ou de outras pessoas e instituições.
Isso não elimina a frustração legítima diante de uma perda. Mas ajuda a separar duas coisas que costumam se confundir: perder uma capacidade específica e perder a capacidade de decidir por si. Em qual área da sua vida você já fez essa troca — abrir mão de um jeito antigo de fazer algo para continuar fazendo o que importa?