O médico que decretou que mulher não sentia desejo — e as 45 que disseram o contrário
16/09/2026 · sexualidade · Fonte: William Acton, The Functions and Disorders of the Reproductive Organs (1857), e o levantamento de Clelia Duel Mosher (Universidade Stanford)
Ilustração criada pelo Clube da Maturidade
Em 1857, o cirurgião inglês William Acton publicou The Functions and Disorders of the Reproductive Organs, livro que virou referência médica por décadas. Nele está escrito, com todas as letras, que a maioria das mulheres (felizmente para a sociedade) não é muito incomodada por sentimento sexual de espécie alguma.
Aquilo não era conversa de esquina: era medicina impressa, ensinada a estudantes e repetida a maridos. Virou regra de comportamento por tabela — se o normal era não sentir, a mulher que sentia desejo tinha algum defeito a esconder.
Do outro lado do oceano, a médica Clelia Duel Mosher fez o que ninguém tinha feito: perguntou. Entre 1892 e 1920, entrevistou 45 mulheres nascidas em pleno século XIX sobre desejo e prazer. Trinta e cinco disseram sentir desejo. Trinta e quatro relataram ter orgasmo. Boa parte apontou o prazer dos dois, e não a procriação, como razão de ter relações. O caderno com as respostas ficou esquecido num arquivo de Stanford até 1973, quando o historiador Carl Degler topou com ele, e só foi publicado em 1980.
A ideia de Acton atravessou o mar e chegou aqui inteira. Quem tem hoje sessenta ou setenta anos ainda alcançou o fim dela: a avó de quarto separado, a mãe que entregava um livrinho e saía do cômodo, a tia avisando que moça direita não devia gostar daquilo. Ninguém dizia que estava citando um tratado inglês de 1857. Era só o que se falava na cozinha.