A máscara que só ficava no rosto se a mulher continuasse calada
16/09/2026 · sexualidade · Fonte: New Orleans Museum of Art, sobre as máscaras da Veneza do século XVIII
Ilustração criada pelo Clube da Maturidade
Na Veneza do século XVIII, a máscara não era coisa de uma noite. Durante quase metade do ano as pessoas saíam mascaradas para o teatro, para as reuniões e para a rua, no período que acompanhava a longa temporada teatral. A bauta, branca e de queixo saliente, era das famílias nobres e obrigatória em cerimônias oficiais.
A outra era a moretta: um oval de veludo preto, usado exclusivamente por mulheres da aristocracia, sem tiras nem laços. Ela parava no rosto porque a mulher mordia um botão preso por dentro. Ou seja: enquanto estivesse mascarada, ela não falava. O disfarce completo era o rosto encoberto mais a voz suspensa.
E o que a cidade fazia com isso? A máscara embaralhava as classes, permitia que mulheres saíssem sem acompanhante e dava a todo mundo uma margem de liberdade sexual que o nome e o sobrenome não davam. O anonimato não criava o desejo — ele só retirava a plateia. Não é por acaso que a Veneza mascarada é o cenário das histórias de Casanova, e não a Veneza de cara limpa.
Por aqui a máscara sobreviveu no baile de Carnaval do clube: o dominó preto, a lantejoula, o rapaz que ninguém sabia quem era, e a hora combinada em que as máscaras caíam e a brincadeira acabava. Quem dançou nesses salões sabe que a graça toda estava no intervalo entre reconhecer e não reconhecer.